quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Empresário de Apodi pede ajuda nas redes sociais para se livrar do vício em cocaína

(Foto: Josemário Alves)

Por Maricélio Almeida e Josemário Alves
Portal Mossoró Hoje

“Se eu não parar eu vou morrer, não tenho escolha”. A afirmação em tom de desabafo é do empresário Allan Gurgel Sizenando. Aos 38 anos, ele percebeu, no último domingo, 16, que era chegada a hora de dar um basta a um vício que o consome há mais de 10 anos: a cocaína.

Morador do município de Apodi, distante cerca de 70 km de Mossoró, Allan utilizou suas redes sociais para pedir ajuda. Estava cansado de tentar lutar sozinho. A repercussão foi imediata.

“Na segunda-feira, tinha gente na minha casa que eu nunca tinha visto, o telefone não parava. Foi bom, porque vi que tem pessoas que gostam de mim”, afirmou o empresário, que recebeu o repórter Josemário Alves em sua casa, para uma conversa franca sobre sua história de vida e o vício em cocaína.

Allan respondeu todas as perguntas sem titubear. Revelou que já imaginava a grande repercussão que sua postagem teria, destacando que não havia outra alternativa para chamar atenção da família para o problema.

“É um problema de saúde e eu ia continuar do mesmo jeito, abafado, iam passar 100 anos e ninguém ia perceber? Até pela quantidade de dinheiro que se gasta dava para ver. Eles faziam vista grossa”, afirma Allan, referindo aos seus familiares, acrescentando ainda que já chegou a gastar R$ 1,7 mil em um único fim de semana regado a álcool e cocaína.

“Eu postei aquilo porque eu estava sentindo, estava precisando, meu interesse era justamente chamar atenção da família, não é possível que eles não percebessem, eu todo final de semana no meio do mundo, farreando, usando drogas...”, complementou.

O início

O primeiro contato de Allan com a cocaína ocorreu há aproximadamente 14 anos. Por influência de amigos, ele acabou aceitando experimentar a droga, em uma vaquejada. Desde então não parou mais.

“Sozinho a gente não tem contato com essas coisas, foi um amigo meu taxista que me apresentou, em uma vaquejada, de lá para cá foi só aumentando, gradativamente, foi ficando mais fácil de encontrar, naquela época era mais difícil. Hoje até Disk-Drogas tem, ligam e vem deixar na sua casa”, detalha.
(Foto: Josemário Alves)

Agora, aos 38 anos, pai de um menino de 4, Allan Gurgel não suporta mais as crises causadas pelo consumo de cocaína. O empresário conta que viu a morte de perto várias vezes. “Não ia para o hospital para preservar o nome da família, mas chega um ponto que você vai ficando com medo, hoje eu tenho um filho, preciso buscar ajuda senão eu vou morrer, eu não posso morrer, tem gente que precisa de mim”, desabafa.

Entre os efeitos colaterais da droga, Allan destaca a Síndrome do Pânico. Foi justamente uma dessas crises que o fez pedir ajuda nas redes sociais. “A última vez que usei foi entre o sábado, 16 e domingo, 17. Estava só em casa, foi quando eu vi que ia morrer sozinho, não tinha ninguém para pedir socorro. Foi quando desabafei, sabia que ia levar porrada de todo lado, mas era o único jeito, depois daquilo ali só melhorou”, disse.

“Eu não consigo guardar uma coisa me aflige, e estava me afligindo já faz tempo, já tinha tentando parar outras vezes, e sempre havia recaída, passei vários meses na igreja (a mulher de Allan é evangélica), mas eu sempre fazia testes: ‘vou tomar uma cerveja hoje para ver se eu sou forte’, mas sempre caía. Nunca consegui resistir, por isso que disse que tudo começa num copo de cerveja. O álcool abre as portas para tudo de ruim”, pontua.

“Falsa alegria e falsos amigos”

Ainda sobre os efeitos causados pela cocaína, Allan revela que a sensação no momento do consumo era de “falsa alegria”. “Eu não ficava violento, pelo contrário, só fazia rir, e tirava meu sono, mas quando passava o efeito me perguntava: ‘Meu Deus, porque eu faço isso?’”, questionava-se.

Para Allan, o uso de cocaína está diretamente atrelado ao consumo de álcool. “Nunca fumei cigarro, maconha, nunca usei crack, mas a bebida é um problema. A droga é muito sedutora, quando você está bebendo, dá vontade, não posso voltar a beber. Sou alcoólatra, tenho que colocar na minha cabeça que não posso beber mais”, afirmou.

O empresário reclama ainda dos “falsos amigos” que a vida boêmia apresenta. “Na sociedade, onde a gente chega é bajulado, a mesa é sempre farta, mas amigo mesmo você não tem, agora quando você tem estrutura para farrear nunca vai faltar amigo para você, esse tipo de amigo falso nunca me faltou”.

Após a postagem no Facebook, os verdadeiros amigos de Allan se revelaram. “Fiquei surpreso ao ver quantos amigos de infância me mandaram mensagem, pessoas que eu não via há 10, 20 anos, esses são os amigos de verdade, os de agora não vejo um mandar mensagem, ninguém tem coragem de mostrar a cara”, lamentou.

Tratamento

Hoje, o empresário já está se medicando para evitar o consumo de álcool. No próximo dia 24, Allan também inicia o tratamento contra o vício em cocaína, em Mossoró. “Em termo de tratamento essa é a primeira vez, vou entrar em um tratamento químico forte. Já busquei ajuda através da fé, mas sempre recaía, e ficava até com vergonha, sou muito autocrítico, quando faço algo que não gosto fico me punindo”.

Família e futuro

Casado pela segunda vez (o primeiro casamento acabou, entre outros motivos, pelo problema de Allan com as “farras” e a droga), o empresário espera agora uma recuperação plena, com o auxílio da família.

“Esse assunto era um tabu lá em casa, foi até bom, porque viram que isso pode acontecer com qualquer um, em todas as classes sociais. Espero agora uma vida melhor, sair disso. Não indico para ninguém. É o fim de vida, de curso. Você imagine para uma pessoa que não tem condições de se tratar, que não tem apoio da família? Minha família está em peso comigo, todo mundo de braços abertos”, concluiu, deixando uma mensagem para os jovens:

CONFIRA EM VÍDEO:

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